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quinta-feira, 19 de março de 2020

𝗖𝗼𝗿𝗼𝗻𝗮𝘃𝗶𝗿𝘂𝘀 | 𝗖𝗮𝘀𝗼 𝗱𝗲 𝗘𝘀𝘁𝘂𝗱𝗼 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗮 𝗡𝗼𝘃𝗮 𝗣𝗮𝗻𝗱𝗲𝗺𝗶𝗮

A Covid-19 é uma doença infeciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2 (Síndrome Respiratória Aguda Grave – Coronavírus 2) e reacendeu um revés que a nossa sociedade não tinha desde a gripe espanhola de 1918. Pode ser uma memória distante, mas a gripe espanhola vitimou 50 milhões de pessoas, o equivalente a 200 milhões hoje e três vezes o número de soldados que morreu durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial (1). Neste ensaio, pretendo refletir sobre as características que levaram a que o SARS-CoV2 tenha sido considerado uma “Emergência Global de Saúde Pública” pela OMS e o que está atualmente a ser feito para detê-lo. A possibilidade do vírus se tornar uma calamidade tão letal quanto a gripe espanhola ainda está de pé.

O novo coronavírus, CDC

Primeiro, é crucial entender quais as características de SARS-CoV-2 o tornam tão dramático. O vírus pertence ao género Coronavírus, que inclui membros que infetam regularmente os seres humanos, como algumas constipações (cerca de 10-15%, 2) e vírus notavelmente perigosos, como SARS e MERS, capazes de matar 10% e 35% das suas vítimas, respetivamente (3). No entanto, o vírus da Covid-19 possui atributos que o diferenciam de todos os outros membros. Por um lado, é menos contagioso do que as constipações, embora muito mais perigoso. Por outro lado, não é tão mortal quanto o SARS e o MERS, mas uma pessoa pode transmiti-lo com ausência ou leve sintomatologia, algo bastante incomum para os outros dois vírus. Esta última característica foi uma ferramenta crucial na contenção nas epidemias de SARS e MERS, uma vez que o pessoal médico podia isolar os doentes quando começavam a exibir sintomas, que coincidia com a altura em que ficavam contagiosos. 

Na situação do novo coronavírus, os sintomas são facilmente confundidos com viroses pouco severas e, assim, podem passar desapercebidos na população até haver um número elevado de casos, como aconteceu em Itália e em diversas outras regiões. Citando o conceituado imunologista Anthony Fauci, “em infeções, particularmente infeções respiratórias, quão mais eficiente for um vírus a propagar-se, menor número de casos fatais terá. É por isso que o surto da gripe H1N1, em 2009, não foi considerado uma pandemia particularmente grave. O vírus espalhou-se muito, muito bem, mas a sua taxa de mortalidade foi bastante reduzida." Nesta entrevista, Fauci alertou que havia exceções à regra, como a já referida gripe espanhola de 1918, que era consideravelmente contagiosa e fatal. Cem anos depois, deparamo-nos com outra exceção. Contudo, estes dados não são um indício que SARS-CoV-2 seguirá as pegadas da gripe espanhola, uma vez que o mundo avançou, não está assolado pelas condições deploráveis da Grande Guerra e possui meios mais eficientes para lidar e conter pandemias.

Evitar contrair Covid-19, CDC
Relativamente às rotas de transmissão de SARS-CoV-2, ainda não são totalmente conhecidas. Acredita-se que as pessoas infetadas espalhem a doença principalmente por gotículas de saliva enquanto espirram, tossem e falam e por fómites (qualquer objeto capaz de transferir o vírus de um doente para um novo hospedeiro). Como mencionado, a reduzida sintomatologia de algumas pessoas predispõe-nas a transmitir a doença sem se aperceberem que têm Covid-19, além de que diversos estudos indicam que o vírus é capaz de sobreviver em superfícies por vários dias (mais de 3 dias em plástico/aço inoxidável, até 4 horas em cobre e 24 horas em cartão) e em aerossol por até 3 horas (4). Outras formas de transmissão, apesar de menos comuns, podem ser por contato com sangue, matéria fecal e urina contaminados (5). 

Sucintamente, a progressão da Covid-19 varia desde a ausência ou surgimento de sintomas inespecíficos (como febre, fadiga e tosse seca) até condições potencialmente fatais, como pneumonia grave, síndrome do desconforto respiratório agudo, sepses e falência de vários órgãos (6). A Covid-19 é especialmente grave para idosos e indivíduos com diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão ou cancro (7 & 8). Os homens são mais suscetíveis à doença, provavelmente por as mulheres terem um sistema imune mais robusto (9, 10, 11 & 12).

Informações recentes da OMS sugerem que a 'taxa bruta de mortalidade' do Covid-19 é de cerca de 3 a 4%, dependendo da qualidade do sistema de saúde, da idade média da população, entre outras variáveis ​​(7). É de salientar o quão cautelosa a OMS aplica o termo 'bruto', pois dados recentes indicam que a taxa de mortalidade pode ser muito inferior à atualmente estimada e há duas razões principais para o efeito (13 & 14). Primeiro, reconhece-se que algumas pessoas não desenvolvem sintomas severos de Covid-19. Consequentemente, muitos casos leves podem não ser numerados. A título de exemplo, um estudo chinês mostrou cicatrizes nos pulmões de um paciente contagioso com o novo coronavírus, embora ele não apresentasse sintomas. O diagnóstico foi confirmado: pneumonia assintomática por Covid-19 (15 & 16). Um outro exemplo é um homem de 27 anos do cruzeiro japonês. Foi confirmado que ele estava infetado com Covid-19 e que havia apresentado sintomas gripais por quatro dias; no entanto, o estudo concluiu que ele permaneceu contagioso por mais de duas semanas (17). Estudos posteriores são necessários para corroborar e determinar a ocorrência de tais situações, contudo, fica demonstrado uma das características que podem estar a dificultar a contenção da pandemia.

Sars-CoV-2, Public Domain

Dadas as informações e os casos discutidos, a eficácia das quarentenas implementadas por vários países pode ser questionada. A China foi certamente bem-sucedida com o isolamento, mas deve enfatizar-se que os chineses estão mais acostumados a seguir os cuidados para impedir a propagação de vírus e, mesmo assim, interromperam a sua economia para conter o SARS-CoV-2. A NASA informou recentemente que as emissões de gases venenosos para o meio ambiente haviam diminuído drasticamente na China devido à quarentena do país (18, e, há poucos dias, em Itália). O esforço do povo chinês parece ter sido gratificante, porém, o enigma permanece: terá sido suficiente para impedir que o vírus os ameace novamente? 

Devemos considerar profundamente a questão anterior antes de ponderar suspender por completo a economia da Europa, uma vez que uma nação falida é imensamente mais débil a enfrentar uma pandemia. É certo que o governo português já mediou tais consequências e procurou o melhor equilíbrio entre conter a doença e manter minimamente a sustentabilidade do país, como enunciou o estimado Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: "Só se salvam vidas e saúde se, entretanto, a economia não morrer”.

Perguntas e respostas ao Coronavirus, Pixabay

Para responder ao dilema corrente e tendo em conta que as previsões mais otimistas para a obtenção de uma vacina predizem pelo menos um ano de distância, os cientistas também devem determinar se os pacientes que superaram a Covid-19 são imunes a reinfeções pelo vírus. Caso se confirme, a abordagem do Reino Unido de imunizar naturalmente a população pode ser uma solução realista. Claro que, para tal fim, as pessoas incluídas nos grupos de maior risco devem evitar a exposição, como o governo inglês tem sugerido e implementado.

Por fim, estudos futuros devem ainda concentrar-se em várias incertezas sobre o Covid-19, especialmente se é possível e plausível contê-lo a longo prazo, clarificar a taxa de mortalidade média e definir tratamentos medicamentosos para superar os piores sintomas do vírus (já há alguns em fase experimental).

Referências

1 — Patterson, K.D. & Pyle, G. F. (1991). The geography and mortality of the 1918 influenza pandemic. Bulletin of the History of Medicine, 65(1): 4–21.
2 — Heikkinen, T. (2003). The common cold. The Lancet Infectious Diseases, 361(9351): 51-9.
3 — Cascella, M., Rajnik, M., Cuomo, A., et al. (2020). Features, Evaluation and Treatment Coronavirus (COVID-19). Treasure Island (FL): StatPearls Publishing. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554776/
4 — van Doremalen, N., Bushmaker, T., Morris, D., Holbrook, M., Gamble, A., Williamson, B., Tamin, A., Harcourt, J., Thornburg, N., Gerber, S., Lloyd-Smith, J., de Wit, E. & Munster, V. (2020). Aerosol and surface stability of HCoV-19 (SARS-CoV-2) compared to SARS-CoV-1. Available from: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.09.20033217v2.full.pdf+html
5 — Cai, J., Sun, W., Huang, J., Gamber, M., Wu, J. & He, G. (2020). Indirect virus transmission in cluster of COVID-19 cases, Wenzhou, China, 2020. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
6 — Serviço Nacional de Saúde (2020). Quais são os sinais e sintomas? SNS 24. Available from: https://www.sns24.gov.pt/tema/doencas-infecciosas/covid-19/
7 — World Health Organization (2020). Coronavirus disease 2019 (COVID-19). Situation Report – 46. Available from: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200306-sitrep-46-covid-19.pdf?sfvrsn=96b04adf_2
8 — WorldOMeter (2020). Age, Sex, Existing Conditions of COVID-19 Cases and Deaths. Available from: https://www.worldometers.info/coronavirus/coronavirus-age-sex-demographics/
9 — Karnam, G., Rygiel, T.P., Raaben, M., Grinwis, G.C.M., Coenjaerts, F.E., Ressing, M.E., et al. (2012). CD200 Receptor Controls Sex-Specific TLR7 Responses to Viral Infection. PLOS Pathogens, 8(5): e1002710.
10 — Peretz, J., Pekosz, A., Lane, A.P. & Klevin, S.L. (2016). Estrogenic compounds reduce influenza A virus replication in primary human nasal epithelial cells derived from female, but not male, donors. American Journal of Physiology, 310(5).
11 — Taneja V. (2018). Sex Hormones Determine Immune Response. Frontiers in immunology, 9: 1931.
12 — Frodsham, G. (2011). 'Man flu' - do women just have stronger immune systems? BioNews. Available from: https://www.bionews.org.uk/page_93215
13 — Wilson, N., Kvalsvig, A., Barnard, L.T. & Baker, M.G. (2020). Case-fatality estimates for COVID-19 calculated by using a lag time for fatality. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
14 — Kelland, Kate. (2020). Why COVID-19 'Death Rates' Are Not What They Seem. U.S. News. Available from: https://www.usnews.com/news/world/articles/2020-03-12/why-covid-19-death-rates-are-not-what-they-seem
15 — Lin, C., Ding, Y., Xie, B., et al. (2020). Asymptomatic novel coronavirus pneumonia patient outside Wuhan: The value of CT images in the course of the disease. Clinical Imaging, 63: 7–9.
16 — Shi, H. & Zheng, C. (2020). Radiological findings from 81 patients with COVID-19 pneumonia in Wuhan, China: a descriptive study. The Lancet Infectious Diseases. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1473309920300864?via%3Dihub#!
17 — Arashiro, T., Furukawa, K. & Nakamura, A. (2020). COVID-19 in 2 persons with mild upper respiratory tract symptoms on a cruise ship, Japan. Emerging Infectious Diseases, 26(6).
18 — NASA. (2020). Airborne Nitrogen Dioxide Plummets Over China. Earth Observatory: NASA. Available from: https://www.earthobservatory.nasa.gov/images/146362/airborne-nitrogen-dioxide-plummets-over-china


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